quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Monólogo do benefício da dúvida

Entre, entre, não faça cerimónia. Uma pedra, quer? Tem umha mortalha? Sabe enrolar? Olhe, eu já me esqueci. Não, não é para mim. Deixei de fumar quando... espere... quando você começou. Sabe, guarda-se a atitude, filtra-se a experiência e deita-se fora a matéria para não dar cabo da saúde. O quê, não fuma? Óptimo, sendo assim... Whisky? Pepsi? Águas? Não bebe? Ficam-lhe muito bem esses prudentes sentimentos. Pois então paciência, vai a seco e tudo. Quantos anos tem, 20? Oh, se eu lá pudesse ir dar uma voltinha outra vez, meu amigo! Mas diga lá, o que o traz tão novinho ao psiquiatra? Os seus pais estão ao corrente? Ah, é independente!? E trabalha em? Estudante... mesada... Claro, os tempos mudaram, isto está bom é para a juventude. Ora, dispa-se, descontraia os preconceitos, feche os olhos e estenda aí na marquesa. Não se preocupe, isto é gente séria. Mas diga-me lá a sério o que o preocupa. Conflito de gerações? Dos seus pais aos nosos dias? Bem vê. Os cinquentões foram à guerra ao som do Elvis e vieram de lá com a Marcha Fúnebre do Chopin. Os quarentões queriam mudar o mundo com flores na boca e acabaram a ver passar os trintões a enterrar-se em overdoses. Como vê, o caso não era para menos, havia que pôr um freio à galopada, porque senão aonde é que íamos todos parar? Além disso vocês agora não se podem queixar. Não vão à guerra, ouvem Elvis, deixam-vos ter a ilusão de que mudam o mundo com ou sem flor na boca por computador e enterram-se à mesma em overdoses. Convenhamos que é um naipe muito mais alargado e versátil de opções. Como? Gostaria de ter uma vida própria? De ter uma personalidade? Aí é que eu já não o posso ajudar. Quê? Os seus amigos chamam-lhe maricas porque você lê e não vê TV? Ouça, não é preciso ficar paranóico. Que tal procurar os seus verdadeiros amigos? Não há? Há, há. Não pense que é um protótipo no meio dos rebanhos. Como se diz em ficção científica, we are not alone. Tem namorada? Namorado? Nada? Porquê? Ninguém o ama por causa do seu estilo fechado? Sim, diga, vá, pois. Diga lá isso outra vez, é muito interessante. "Os adultos cansam-se das cores e pintam por cima tudo a preto ou tudo a branco. As crianças vêem os adultos a preto e branco para os poderem colorir." Engraçado, se calhar é essa a diferença entre a vida e a arte. Mas deixe lá que eu também tenho um grave problema. Odeio o Inverno, sou alérgico à Primavera, sofro de claustrofóbia no Verão e morro de tédio no Outono... Mas mudando de assunto, o que o meu amigo precisa é de viajar muito. Pegue nas mesadas e mexa-se, na sua idade ainda lhe dão boleia, aprenda outras coisas e outras gentes. Vá, levante-se, leve lá os seus preconceitos para recordação e abra os olhos, vista-se e desapareça que é sempre bem vindo. Faça-se à estrada e nunca diga que não ao desconhecido. Rasgue-me essa cabeça e abuse desse corpo. Sozinho, devagar, sozinho. Quando voltar vá só pela sua vontade e pelo seu caminho. Como diria o John Lennon, life is very short, there is no time. Quanto é? O prazer foi todo meu, para si é de borla. Eu depois mando a conta aos seus pais, deixe isso comigo.

Joaquim Castro Caldas (2002) Convém avisar os ingleses. Vila Nova de Famalicão: Quasi edições.


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Lá vamos. O autor morreu hai pouco, é a vida, nom é?, mas eu já vinha pensando em postar este anaco desde antes de saber disso, é curioso...
Por umha frivolidade, porque som horas de ir embora, mesmo que sejam umhas feriazinhas, e não ter receio do desconhecido, como sempre.

2 comentários:

Sun Iou Miou disse...

Obrigada por essa maravilha. Anoto no caderno a referência.

Kaplan disse...

saiba que ten vde unha encomenda en ithaca, ande, fágame o favor de responder. saúdos monolóxicos.